A evolução do Periquito Australiano


"...Essas mutações também surgiam na natureza mas faziam desses pássaros alvos fáceis para os predadores em função da diferenciação das cores, o que os tornava muito mais visíveis no meio de um bando de pássaros camuflados pela plumagem..."
Fonte:  Fulvio Lucietto - juiz OBJO
A EVOLUÇÃO DO PERIQUITO AUSTRALIANO   
 


          A aparência do periquito australiano (Mellopsitacus Undulatus) transformou-se muito desde o início da sua reprodução em cativeiro, na metade do século XIX.                         
          Essa metamorfose ocorreu tanto nas cores quanto na estrutura do pássaro.
Com relação às cores, por exemplo, a criação em cativeiro permitiu a fixação de mutações. Essas mutações também surgiam na natureza mas faziam desses pássaros alvos fáceis para os predadores em função da diferenciação das cores, o que os tornava muito mais visíveis no meio de um bando de pássaros camuflados pela plumagem.
          Diferentemente do que ocorria na natureza, onde um periquito mutante era fadado à morte, no cativeiro esses exemplares eram super protegidos e valorizados, justamente pelo aspecto visual diferenciado.
          Isso permitiu a identificação e a fixação de várias mutações, que abrangiam diferenciações de cor e desenho de asa, no decorrer desses mais de 150 anos.
          Da mesma forma que as variações de cores iam sendo consolidadas através de acasalamentos pré-determinados, simultaneamente uma seleção da forma do periquito também ia sendo feita, tentando-se aprimorar características como tamanho, postura e estrutura das penas.
          Esse processo de seleção, após décadas de desenvolvimento, fez com que o atual periquito australiano criado em cativeiro, mais precisamente o Periquito de Exposição tenha se transformado num pássaro muito diferente do exemplar selvagem, inclusive no que diz respeito à estrutura óssea.

 

          Os atuais exemplares têm um tamanho até 30% maior do que os exemplares selvagens e também uma quantidade, comprimento e textura de penas muito mais desenvolvida.
          Quesitos estéticos também foram atribuídos à esses pássaros como proporção de medidas entre comprimento total, largura de ombros e forma da cabeça.
          No entanto, a grande questão nesse processo todo girou em torno de como se aprimorar efetivamente a forma do periquito. Com relação à genética que determinava as cores e desenhos de asas tudo ficou bem definido, posto que os genes responsáveis por tais mudanças foram identificados e descritos quanto ao seu comportamento hereditário.
          E os genes que determinam a forma do periquito? Quais são eles? Como eles se comportam quanto à hereditariedade? Existe uma relação de dominância e recessividade entre características diferentes de um mesmo item, como tamanho de cabeça, por exemplo?
          Todas essas questões são ainda uma incógnita e é justamente aí que entra o trabalho do criador.
          Na realidade o que se sabe é que essas características são determinadas não pela ação de um único gene, mas pela associação de vários genes. Como essas recombinações gênicas não são de conhecimento da ciência, cabe ao criador identificá-las e perpetuá-las nos seus exemplares. Como fazer isso?
          De nenhuma outra forma se não tentativa e erro.
          Trazendo tudo isso para a vida prática, o desenvolvimento de um “tipo” ideal de periquito é como um grande quebra-cabeça, aonde você tenta somar as “peças” de modo a que formem o desenho desejado.
          No caso do periquito de exposição esse “desenho desejado” é representado por um pássaro que tenha as seguintes características: 
           1) bom posicionamento de poleiro (que forme um ângulo “quase” que reto em relação à uma linha horizontal imaginária, com uma inclinação máxima de 30°).
           2) boa largura de ombros (que faça, subindo a partir do poleiro e visto de frente, um leve desenho em forma de “V”). A largura total dos ombros ser equivalente à aproximadamente 2/3 do comprimento do corpo, medidos “sem” contar a cauda.
           3) boa largura facial (subindo a partir dos ombros até a carúncula com uma angulação mínima de modo a NÃO deixar o pescoço evidenciado).
           4) boa proporção entre o tamanho da cabeça (medida do topo até a parte mais baixa da gola) e o comprimento total do corpo (no atual “modelo ideal” a medida da cabeça deve ser 1/3 do comprimento total do corpo).
           5) penas sedosas e bem assentadas, sem contudo serem curtas.
           6) cabeça com profundidade de nuca (distância atrás dos olhos) e cujas penas cresçam, não só para cima, mas também para os lados e até á um ângulo de 45° negativos, medidos a partir de uma linha horizontal imaginária que passe sobre as narinas, de modo a dar à penas da cabeça do periquito, quando olhada de frente, o formato de um “leque” (direcionamento das penas da cabeça).

 

            7) largura entre a carúncula e as laterais da face onde começam os desenhos ondulados. Essa característica é evidenciada  por uma faixa vertical larga sem melanina (amarela, nos periquitos de fundo amarelo e branca, nos periquitos de fundo branco) entre as narinas e as marcas onduladas das laterais da face. O que proporciona essa característica é justamente a direção em que as penas dessa região nascem.
             8) as pintas da gola devem ser bem arredondadas e eqüidistantes, e a máscara bem profunda, com uma boa distância do bico.
Certamente agrupar todas essas características num mesmo exemplar não é tarefa fácil !
          Acredito que a melhor maneira de fixarmos as características  físicas dos periquitos é formando “famílias” (linhas de sangue) que  possuam as características desejadas.
          Como já comentei anteriormente, as características de “forma” dos periquitos são determinadas pela ação conjunta de vários genes não identificados. Sendo assim, quando você seleciona visualmente essas características nos seus exemplares, a melhor maneira de perpetuá-las é acasalando os indivíduos aparentados e que possuam essas características entre si, formando, após algumas gerações, o que chamamos de “linha de sangue” ou “linhagem”.
          Os exemplares oriundos de sucessivos acasalamentos aparentados (consangüinidade) têm uma chance muito maior de passar as suas características físicas, no que diz respeito à “forma”, para os seus descendentes, isso porque, quando você acasalou, lá atrás, os pássaros aparentados e que tinham o “tipo” desejado, entre si, você acabou selecionando aqueles vários genes “desconhecidos” que, em conjunto, produzem a forma desejada.
          Para que se obtenham bons resultados nesse processo de seleção é importantíssimo saber identificar quais são essas “características desejáveis” porque esse processo pode também fixar “defeitos”, quando essa triagem não é bem feita.
          Daí a importância de participar de exposições, visitar criadores mais experientes, e pesquisar sobre a constante evolução do “padrão” do periquito de exposição, etc.
          Sem sombra de dúvidas, ganha-se tempo quando se adquire um exemplar que seja oriundo de uma linha de sangue trabalhada conscientemente por várias gerações.
          O caso é que a aquisição de novos exemplares envolve custos que nem sempre são viáveis.
          Porém, tenha a certeza que você pode desenvolver as suas próprias linhas de sangue, e que esse trabalho vai ajudá-lo muito mesmo quando você, posteriormente, adquirir novos exemplares para o seu plantel, pois você já terá características sedimentadas nos seus pássaros e que certamente se somarão à nova linha de sangue adquirida.