Proventriculite, O misterioso pontinho negro


 "...Temos ouvido de vários criadores reclamações a respeito de filhotes mortos nos últimos anos por causa de uma doença que costumamos chamar de pontinho negro. Há dois anos, constatei o problema em minha criação e comecei a pesquisar para descobrir a origem desse mal, que parece disseminar por todos os plantéis, e tem gerado um certo pânico entre os criadores..."
Fonte: José Luiz Amzalak


 

Proventriculite, O misterioso pontinho negro

 

Temos ouvido de vários criadores reclamações a respeito de filhotes mortos nos últimos anos por causa de uma doença que costumamos chamar de pontinho negro. Há dois anos, constatei o problema em minha criação e comecei a pesquisar para descobrir a origem desse mal, que parece disseminar por todos os plantéis, e tem gerado um certo pânico entre os criadores.

 

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que mesmo os veterinários desconheciam essa moléstia, que costuma matar os filhotes nos primeiros dias de vida e até mesmo dentro do ovo, como pude constatar neste último ano.

Até bem pouco acreditava-se que o pontinho negro era causado por salmonelose ou por coccidiose, e seguia-se o tratamento para tais moléstias. O resultado era nulo, como se podia esperar. Mesmo a possibilidade de exame de vísceras foi descartada, já que se tratavam de filhotes muito pequenos, o que impossibilitaria a necropsia.

 

Como os remédios usados até então pouco ou nenhum efeito positivo causaram, resolvi partir para a ofensiva e passei a ministrar dextrose junto com a papinha dos filhotes. Os donos de granja costumam empregar a dextrose (amido de milho) para evitar a salmonelose em suas aves, o que descobri através de um programa rural. O resultado foi positivo a princípio, fazendo com que vários filhotes se recuperassem em dois dias e sobrevivessem, desaparecendo o pontinho negro. 

 

Posteriormente, percebi que o emprego da dextrose, em canários, trata-se apenas de um paliativo, mas não dá solução, pois a mortandade de filhotes voltou a ocorrer. Afinal de contas, como acabei descobrindo, a salmonelose é apenas uma das conseqüências do pontinho negro, ao contrário do que se costumava apregoar.


Minhas pesquisas levaram-me a uma revista italiana chamada Uccelli, emprestada pelo amigo Malavasi, em fevereiro de 95, quando estive em sua casa. Depois de consultar Malavasi sobre um possível tratamento para o pontinho negro, mostrou-me a revista e um pacote de NF-180 (produto facilmente encontrado em qualquer casa de aves). Malavasi administra diariamente 5 gramas por quilo para todo o plantei por dois anos consecutivos, descansa durante um ano e volta a utilizar o método nos dois anos seguintes. Devemos nos lembrar, entretanto, que a fórmula do produto na Europa é diferente da empregada no Brasil, já que nossos problemas aviários são mais graves e a concentração de furaxona é bem maior.

 

POR QUE DEVEMOS CUIDAR DE TODO PLANTEL?

 

Sabe-se que o problema do pontinho negro é causado pela fêmea, que transporta através do ovo a moléstia a toda a prole, ainda que não manifeste externamente a doença. Dessa forma, partiríamos do princípio de que é uma infecção vertical. Se cuidarmos da fêmea evitaremos, assim, a transmissão da moléstia aos descendentes. O tratamento deve ser feito à base de furoxona (NF-180), seguindo-se a recomendação preventiva de 1 grama por quilo de farinhada seca.

Alguns criadores, já cientes do problema, aconselham mesmo a eliminação da fêmea do plantei, para que esta não gere outras fêmeas portadoras do mal. Mas sabemos muito bem que certas fêmeas são insubstituíveis. Restando-nos, portanto, o tratamento.

 
O QUE É PONTINHO NEGRO?

 

Apesar de ser ainda um assunto pouco conhecido, o pontinho negro começa a ser desvendado. Quando o filhote é afetado, podemos perceber nitidamente o ponto sobre a região do fígado.

O pontinho negro nada mais é do que proventricolite (inflamação do proventrícolo) ou micose 80. O proventrícolo é um órgão situado entre os dois lados do fígado. Sua função principal é produzir o suco gástrico necessário à digestão, o que cria um pH baixo. A inflamação do proventrícolo causa o crescimento dos lados hepáticos e a conseqüente morte do filhote por causa da hipofunção, com variação do pH.

 
O QUE CAUSA A PROVENTRICULlTE

 

Acredita-se que a proventriculite, conhecida na Itália como "crise do sétimo dia", é causada por uma megabactéria desconhecida, segundo Jean Marr.a, ou microorganismo visível a microscópio, segundo Umberto Zingoni. A origem da moléstia parece estar condicionada pela micoplasmose, que diminui a resistência da ave e abre caminho para a entrada no organismo da suposta megabactéria. Devemos recordar que a micoplasmose facilita também a proliferação da coccidiose e da salmonelose, encontradas nos intestinos dos pássaros em proporções normais e aceitáveis. Assim, se tratarmos a micoplasmose, teremos maior sucesso no combate à proventricolite. Álvaro Blasina recomenda, em seu artigo "Reação e Aditivos na Nutrição dos Pássaros: O que fazer e por quê?, o emprego da lincomicina (Lincoespectin) no tratart:lento da micoplasmose.


Alguns veterinários italianos têm obtido certo sucesso no tratamento empregando uma associação de enzima digestiva, com anticorpos polivalentes (antimicotici). O emprego de enzimas parece-nos "um tratamento eficiente", já que a prática tem demonstrado que, se tratarmos os filhotes contaminados por um ou dois dias com papinha (temos empregado Energete ou Céde filhote), se a fêmea aceitar o filhote e alimentá-lo, o pontinho desaparece, resultando numa ave normal e saudável daí por diante.

 

As fêmeas as aves têm capacidade de produzir enzimas digestivas em seus papos. Ao alimentarem a prole, estão introduzindo enzimas em seus organismos, o que facilita a digestão. Nem sempre filhotes que ao apresentam o pontinho negro ao nascerem estão livres desse mal. Temos notado que filhotes aparentemente saudáveis, manifestam a doença até o sétimo dia depois do nascimento, se a mãe deixa de tratá-Ios adequadamente por um período muito logo. A explicação dessa ocorrência poderá ser atribuída hipoteticamente à falta de enzimas digestivas e à conseqüente proliferação de bactérias oportunistas.

 

As papinhas artificiais para criação encontradas no mercado trazem uma combinação de proteínas e vitaminas, como pudemos aferir em algumas de suas bulas, que evitam o desgaste dos filhotes quando a mãe não os alimenta. Um bom resultado prático foi obtido por sugestão do amigo Severino José Simões, que aprendeu o método com o sempre pesquisador atento Celso Ramalho, empregando-se na papinha uma combinação de 15 gotas de Micostatin e uma ponta de colher de café de Clavulin para cada 6 gramas de farinhada seca para filhotes.

 

Especialistas italianos recomendam o emprego de Fungilin e, no Brasil, o já citado Micostatin (Laboratório Squibb): 1ml por litro de água durante 12 dias; ou 2 colheres de sopa de Neorocol pó ou Zoomicina "N" (Glaxo) por litro de água, ambos são encontrados no Brasil.

 

Não nos cansamos de repetir a máxima dos nossos maiores criadores de que nada disso adianta, se não tivermos água fresca e pura, boas sementes (peneiradas e bem acondicionadas), ovos frescos, farinhada de boa qualidade e condições adequadas de higiene para nossos pássaros. A melhor prevenção ainda está na alimentação e manejo.

Esperamos que esse artigo possa ter contribuído para trazer alguma luz a alguns companheiros que, como eu, desesperam-se ao ver seus filhotes morrerem à mingua.