Princípio de Seleção e Melhoramento genético


"...Para qualquer criador a melhoria da qualidade das suas aves deverá ser uma necessidade constante..."
Fonte: Ricardo Pereira

 

Princípio de Seleção e Melhoramento genético

Para qualquer criador a melhoria da qualidade das suas aves deverá ser uma necessidade constante. Se, em parte, isso se consegue pela melhoria e atenção dada a aspectos, como o alojamento e alimentação, correta das nossas aves, grande parte deve-se a uma seleção dos melhores indivíduos para a reprodução garantindo com o tempo a melhoria do nível genético médio do seu efetivo. Desde há séculos que o homem vem selecionando diversas espécies, por vezes com um grande conhecimento e apoio na ciência, noutros baseado na sua experiência e observação. É este o caso da avicultura, pelo menos no campo da ornitofilia. Não poucas vezes encontramos em exposições de aves uma grande desigualdade no nível de qualidade dos exemplares expostos.

Na grande maioria dos casos, não se deve este fato a menor ou maior perícia de uns e outros criadores, nem talvez a uma menor qualidade das aves em si, mas a algumas falhas no nível de seleção que podem, em poucas gerações, fazer baixar o nível do efetivo. Isso não é de louvar nem defender, nem tão pouco beneficia a avicultura nacional. É o velho perigo das médias quando aplicadas a extremos muito afastados. Temos antes de tudo o resto de perceber uma coisa, a seleção leva tempo, gerações, anos, décadas, até se notarem os seus verdadeiros efeitos no nível das nossas aves. Isso é um grande problema para o amador menos atento, que quase sempre não nota os verdadeiros avanços que produz com as suas aves e deixa-os perder, não os reproduzindo em gerações futuras. E se alguém uma vez disse que "uma mutação nova não tem de ser vistosa, mas sim notada", o fato é que a seleção em si não pode ser encarada como as mutações, a seleção ocorre por e nas mutações!!

A seleção, como meio de melhoramento, tem em vista a reprodução das aves que apresentam algum fator de interesse mais desenvolvido que outras, que as torna melhores nalguns pontos. Torna-se necessário distinguir os efeitos causados num indivíduo devido à sua base genética e ao ambiente. São distintos e é assim que os devemos encarar e trabalhar. As condições ambientais são facilmente alteráveis e corrigidas e devem, sempre, permitir (ou tentar) que as aves exprimam todo o seu potencial genético. Como princípios básicos para a evolução da qualidade das aves devemos considerar:

- conhecimento e aproximação das aves ao "standard";

- melhoria das condições ambientais;

- Estabelecimento de linhas estáveis de reprodutores de bom valor genético;

- Conhecimentos básicos de genética das aves com que trabalhamos;

- Noção dos pontos a melhorar no efetivo.

Dito isto resta adiantar uma única coisa. A ornitofilia se basea não só nas amizades que se fazem, mas também na competição saudável (porque também há a outra…) que se cria ao expor as aves. É nas exposições que se mostra o trabalho de uma época e se compara esse trabalho com o de outros criadores e amigos. De nada serve escrever e ler sobre genética, reprodução e tudo mais para depois deixarmos as nossas aves em casa enquanto nas exposições dizemos ter melhor, mas que ficou em casa… È sobre a qualidade genética das aves que nos devemos debruçar. Mas porquê, afinal, todo este empenho na seleção? O princípio é simples e todos o conhecem decerto, escolhem-se as melhores aves para que as crias sejam melhores. O problema reside em saber o que é "melhor", como é que definimos uma ave como "melhor"? Isso implica muita coisa pois podemos selecionar em tamanho, cor, marcações, postura, tipo, etc… No fundo cada fator pode ser selecionado por si só separadamente, mas as aves demonstram todos eles. Infelizmente que quando selecionamos num sentido os outros tendem a piorar. O importante é selecionar de um modo equilibrado e racional, não procurar por milagres com aves muito boas que se compram e depois se desperdiçam em efetivos medianos. Voltemos pois um pouco atrás para que não se perca o correcto raciocínio.

Poucos são aqueles que começam nesta atividade com aves de grande qualidade. A maioria começará com aves encontradas nas lojas, com poucos ou nenhuns fundamentos da sua genética e só mais tarde ganhará o verdadeiro interesse de melhorar as suas aves. Todos os seres exibem, naturalmente, uma diversidade genética própria, ela é, aliás, a base da evolução natural. Essas diferenças também surgem em cativeiro. Enquanto a natureza seleciona aqueles indivíduos mais aptos para sobreviverem e, depois, de reproduzirem, nós selecionaremos os mais "aptos" na característica que pretendemos melhorar. Procuramos obter a ave mais bela, mais composta em termos de postura, enfim, satisfazer os requisitos que um juiz especializado avalia na ave. Não me vou referir às situações que por certo a grande maioria dos criadores encontrou de inicio ao trabalhar com aves desconhecidas e, muitas vezes, de menor qualidade. Vou saltar um pouco essa parte e começar duma altura mais avançada quando o iniciado terá já estabelecido um conjunto de alguns casais e se dedica agora a criá-los.

A primeira questão é qual o número de casais?

De um modo muito geral não podemos apontar regras neste sentido, para qualquer espécie, existem inúmeras mutações e combinações para se poder aconselhar um número. O que se deve fazer é começar por linhas simples ou mutações simples, designa-se isto por linha base. Uma linha é, por definição, um conjunto de indivíduos com características semelhantes que, reproduzidos entre sei, originam descendentes semelhantes a eles. Não se aproxima isto da definição de ilha pura, pois essas exigem uma maior estabilidade e regularidade dos indivíduos produzidos. Devemos procurar nesta fase que as nossas aves reprodutoras produzam descendentes minimamente previsíveis. Casais que produzam resultados pouco estáveis não devem ser incluídos em linhas base. Em relação à quantidade o principal fator a evitar é a consangüinidade. 3 casais será o mínimo aceitável para formar uma linha inicial, 5 o recomendável 8-10 o ideal.

A seleção apenas faz sentido quando nos referimos a linhas de aves, não a indivíduos singulares. O individuo é uma parte da linha e a sua qualidade a demonstração da qualidade da linha. Não é importante ter uma ave muito boa, produzida uma vez cujo nível depois não podemos manter. Por isto quando se adquirem aves novas para melhorar eles deverão ser sempre muito melhores, mesmo que isso custe dinheiro. Uma boa ave não faz milagres. Desiludam-se os que acreditam que comprando as melhores aves de uma época e cruzando-as entre si ou com as suas melhoram muito o seu nível. Talvez numa primeira geração, mas dificilmente isso perdurará em gerações futuras simplesmente porque as bases genéticas são demasiado distintas. Passado algum tempo começa a haver de novo demasiada irregularidade nos descendentes dessas aves. Deve-se manter uma linha base sólida, estável, sobre a qual se melhoram as outras aves. As alterações e melhorias de uma linha medem-se em grande parte, pela estabilidade dos resultados obtidos, pela manutenção de um nível de qualidade acima da média dos progenitores. É regra básica da seleção que apenas se deve reproduzir como superior o que realmente for superior ao nível médio da ascendência, ou seja, só nos interessam aves que sejam melhores que os pais. Tudo o resto será pouco provável que traga melhorias.

As aves compradas para melhorar o efetivo devem SEMPRE ser usadas em aves novas (embora com certeza da sua fertilidade) porque essas crias deverão ser no mínimo tão boas como os seus progenitores. As melhores aves nem sempre devem ser acasaladas às melhores, isto provocaria uma diferença entre os resultados de alguns casais que não poderíamos compensar no futuro. Um bom acasalamento deve garantir que as qualidades de ambas as aves se complementa nas crias. Em suma, só selecionando racionalmente as melhores aves podemos melhorar o nosso efetivo. É essencial que se participe em exposições onde vamos medir essa melhoria, que se trabalhe no sentido de obter resultados estáveis e fiáveis não casuais e, acima de tudo, que se perceba a importância de criar e manter linhas, evitando renovações maciças do efetivo entre épocas e se ganhe confiança nas qualidades das nossas aves. Ao manter e substituir reprodutores deve-se manter sempre que isso interesse à seleção descendentes destes para garantir a continuidade de uma base genética estável e familiar às outras aves.

Os registros produtivos são de extremo valor para se melhorarem os resultados. Sem registros corretos de descendência não podemos controlar o nosso efetivo por muito tempo. Só mantendo estas condições podemos melhorar as aves, a sua qualidade e a nossa competitividade e valor como criadores.