A Reprodução dos Bicudos em Cativeiro

 


O abuso nos cruzamentos consangüíneos também colabora para o enfraquecimento fisiológico dos pássaros

Fonte: Canto e Fibra


 

A Reprodução dos Bicudos em cativeiro

Apesar da facilidade de acesso às informações disponíveis na literatura e na internet, da diversidade de acessórios, medicamentos, rações, complexos de vitaminas e aminoácidos, prebióticos e probióticos, e, principalmente, da disponibilidade de matrizes produtos de muitas gerações reproduzidas em cativeiro, os índices zootécnicos na criação de bicudos (Oryzoborus Maximiliani ) apresentam números modestos. São, em média, 3,9 ovos postos no ano por matriz em atividade reprodutiva e taxa de eclosão média de 57,5 %. Esses dados foram coletados por pesquisadores durante 5 anos em 4 criatórios comerciais com número mínimo de 20 matrizes em atividade reprodutiva (daí o IBAMA liberar um número reduzido de anilhas por matriz). Isso nos parece demonstrar que pouca importância se tem dado à questão da habilidade materna das fêmeas em função da seleção de outras virtudes, como fibra, repetição e qualidade de canto. O abuso nos cruzamentos consangüíneos também colabora para o enfraquecimento fisiológico dos pássaros. Sabe-se que os criadores amadoristas apresentam, por vezes, resultados muito melhores, principalmente por cuidarem pessoalmente dos pássaros, com a dedicação típica dos apaixonados.

A reprodução dos bicudos poderá ser feita em viveiros ou em gaiolas criadeiras. A preferência recai sobre as gaiolas, que permitem um melhor controle da atividade e o emprego de um macho para até 6 fêmeas. Assim um macho com qualidade superior poderá gerar muitos filhos em uma temporada. Apesar da reprodução ser possível com machos de 18 meses e fêmeas de um ano, o ideal é empregar fêmeas com dois ou três anos e machos com a definitiva plumagem negra.

O local onde estarão reunidas as gaiolas deverá ser livre de perturbações, com uma temperatura variando de 26 a 33° e umidade relativa entre 50 e 65%. Deverá ser bem iluminado e receber sol pela manhã. Naturalmente apresentamos as condições ideais, o que não significa que alguma variação inviabilize a reprodução dos bicudos.

As gaiolas devem estar dispostas em prateleira, ligeiramente afastadas das paredes e com uma divisória móvel entre elas, para que uma fêmea não veja a outra.

Esse dispositivo deve ser arrumado dois meses antes do inicio da estação reprodutiva, para evitar que as fêmeas estranhem o local. Deve ser ministrado vermífugo para todos os pássaros no inicio de agosto e repetido 20 dias depois. Não se deve permitir a entrada no criatório de novas aves ou de pessoas estranhas aos pássaros durante o ciclo reprodutivo, que vai de setembro a abril. Costumamos ministrar Suprema Vita-E por 20 dias seguidos, para todos os galadores. Mantemos, ainda, um comprimido de Vita-E por semana, para todo o plantel, durante o período reprodutivo.

Os machos galadores devem ser mostrados por alguns momentos para as fêmeas quando se aproxima a estação reprodutiva, para despertar o instinto sexual. As fêmeas devem ouvir o canto dos machos galadores.Há machos que não suportam bem a vida nas prateleiras, esfriando e perdendo o interesse por fêmeas. Esses devem ser mantidos em outro ambiente, sendo trazidos para a prateleira apenas para galar. É desejável, no entanto, que continuem ouvindo as fêmeas e sendo ouvido por elas.
Deve-se observar o máximo de higiene com gaiolas, ninhos e alimentos. O milho verde, ainda bem macio, isento de agrotóxicos, pode ser oferecido 2 vezes por semana e uma boa farinhada deve ser mantida nos comedouros. Nos dois primeiros dias de vida dos filhotes o milho verde, bem macio, se constitui em excelente alimento pois facilita o funcionamento do aparelho digestivo. O alpiste cozido e misturado ou não à farinhada também é excelente opção. Cuidar para que não fique muito tempo na gaiola, para evitar fermentação e desenvolvimento de colônia de fungos. Nos próximos dias, o milho deve ser servido, no máximo, duas vezes por semana. Muito cuidado com a possibilidade de fermentação no milho. Nunca esquecer de retirar o milho da gaiola no final do dia. Se for oferecido milho verde diariamente para uma fêmea com filhotes, esta o empregará preferencialmente em sua alimentação, desbalanceando a dieta e comprometendo o desenvolvimento da ninhada. Como o milho verde não é tão rico em proteínas e outros nutrientes, devemos incentiva-la a consumir rações e farinhadas.

No inicio de setembro os ninhos devem ser colocados nas gaiolas das fêmeas. Devem possuir de 6,5 a 7 cm de diâmetro e 4,5 cm de profundidade. São melhores os confeccionados com bucha vegetal e revestidos com tecido de algodão na fixação à armação de arame. Devem ser instalados no fundo da gaiola, no compartimento oposto ao que será usado para a entrada do galador e em um nível ligeiramente mais baixo que o do poleiro mais alto, para evitar que a fêmea empolere nele para dormir, defecando em seu interior. Embora não seja fundamental, por fora da gaiola pode ser colocada uma proteção que aumente a privacidade da fêmea, melhorando sua sensação de segurança para chocar. Existem cartões feitos de bucha vegetal vendidos em lojas especializadas. Alguns ramos de vegetais artificiais também podem ser usados. O emprego de bucha vegetal no ninho e na proteção é recomendado por facilitar a circulação de ar, ser lavável e apresentar um aspecto natural. As fêmeas deverão estar com as unhas aparadas, pois unhas compridas podem enroscar na forração do ninho arrastando-a para fora. Também podem ferir filhotes.  Colocar a disposição da fêmea um maço de raízes de capim ou fibras de côco cortado para que a fêmea prepare seu ninho para postura. Barbante de algodão também é ótimo.

Notamos que uma fêmea está se aprontando para a reprodução quando inicia a organização do seu ninho. Esse momento é fundamental para o manejo reprodutivo.

Devemos observar a fêmea quando aproximamos o macho. O macho estufa as penas e canta para impressionar a fêmea. A fêmea baixa as asas, fecha os olhos e toma uma postura receptiva. Esse é o momento em que aceitará o macho. Se o momento for perdido, provavelmente teremos uma postura de ovos claros. Se o macho for colocado ates da fêmea aceitá-lo (pedir gala) é briga certa. Algumas fêmeas mais agressivas podem ser mudadas de ambiente para a gala, pois diminuem o seu instinto territorialista. Fêmeas mais agressivas não devem ser acasaladas com machos inexperientes pois esses poderão ficar inibidos para a reprodução.

Posicionamos as gaiolas lado a lado, com as janelas dos passadores alinhadas e com a divisória impedindo que o casal se veja. Retiramos a divisória por um momento e observamos a reação da fêmea. Observe que por vezes ela baixa, mas fica observando o macho. É sinal de que ainda não está totalmente receptiva e que poderá atacar o macho. Quando está realmente pronta, ela baixa, levanta bem a cauda e costuma fechar os olhos.
Se pedir gala, abrimos os passadores e permitimos a entrada do macho na gaiola da fêmea. Se tudo correr bem a gala é muito rápida. O galador retorna rapidamente para sua gaiola.
Colocamos imediatamente a divisória da gaiola da fêmea, separando o casal. Há necessidade de treinarmos os galadores nesse manejo. Fazemos várias passagens empregando uma gaiola de reprodução vazia para que ele se acostume com dimensões, posições dos poleiros e porta do passador.

No amanhecer temos o momento mais adequado para a gala. É comum uma fêmea baixar no primeiro dia e só aceitar o macho no segundo. Algumas fêmeas aceitam a gala mais de uma vez por dia e por dois ou tres dias. Há fêmeas que após serem galadas uma única vez, não aceitam mais o macho. Alguns machos se permanecerem muito tempo perto de fêmeas no cio perdem o interesse. Melhor levá-los para perto das fêmeas somente para galar. Somente a observação e o conhecimento do plantel permitirão atender a individualidade de cada pássaro. Procure conhecer seus pássaros registrando anotações de tudo o que for observado.

Machos que não concluíram bem a muda de penas costumam apresentar problemas de fertilidade. Um macho deve cobrir apenas uma fêmea por dia. Normalmente uma cobertura é suficiente para cada postura. A maioria dos criadores costuma permitir duas galas, em dois dias seguidos ou uma pela manhã e outra à tarde. Não costumamos repetir a gala se a observação mostrou que tudo correu bem.

Dois ou tres dias após a gala tem início a postura. Se a fêmea iniciar o choco após a postura do primeiro ovo devemos remover o ovo com muito cuidado e substituí-lo por um indez de plástico (a venda nas lojas do ramo). O ovo retirado deve ser armazenado em local seco e fresco, sobre sementes de arroz descascado muito limpas, sendo virados duas vezes por dia. Quando a fêmea tiver botado o último ovo recolocamos o que foi retirado, de modo a que todos os filhos nasçam no mesmo dia. A postura normal é de 2 ovos e excepcionalmente 3. Observar dificuldades com a postura permanecendo em condições de prestar socorro para fêmea com “ovo atravessado”.

Sugerimos a leitura do artigo do Sr Gilson Barbosa “Cópula e Prostração” cujo extrato está transcrito nesse site.

É comum uma fêmea botar e não iniciar o choco, ou mesmo largar o choco nos primeiros dias. Nesse caso a solução é a passagem dos ovos para outra fêmea ou mesmo para fêmeas de Manon (são ótimas amas) ou canárias do reino. O uso de chocadeira com viragem automática para ovos de pássaros apresenta bons resultados. O período de incubação varia de 12 a 14 dias, sendo mais comum a eclosão no 13º dia.

Após o nascimento, no entanto, os filhotes podem ser mantidos em incubadoras, a uma temperatura de 33 graus, sendo alimentados com papas produzidas pela industria especializada com o auxilio de uma seringa. Sugerimos a leitura do artigo Incubação Artificial e Alimentação Manual de Filhotes.

Substitua a farinhada, no mínimo, duas vezes no dia. Inclua um premix. Muitos criadores incluem antibióticos na farinhada que alimentará os filhotes para evitar diarréias. Pessoalmente entendemos que a manutenção da higidez do plantel e do criatório por si só garantem o sucesso da reprodução. Quando a fêmea maltratar os filhotes, bicando e arrancando seus cartuchos de penas, podemos empregar, no ninho, uma proteção com tela de viveiro para que continue a alimentá-los sem poder bicá-los.

 

Há necessidade de muita observação nesse período. Os filhotes não podem passar fome ou frio. Se a fêmea não os estiver alimentando suficientemente, complemente sua dieta com papas e seringa. Nunca sacie totalmente o filhote, pois esse passaria a não pedir comida à mãe, que acabaria por esquecê-lo. Substitua o ninho por outro higienizado sempre que notar que o atual está comprometido.

No 5 º ou 6° dia efetuamos o anilhamento. O processo é muito simples. Juntamos os 3 dedos anteriores e os inserimos grupados através da anilha (pode ser em qualquer das patas). O dedo posterior será dobrado para cima e para traz, alinhado com perna. Há fêmeas que começam a bicar a anilha dos filhotes. Se ocorrer há necessidade de proteção do ninho com tela.

Com 13 ou 14 dias os filhotes deixam o ninho. Poderão ser separados da mãe com 35 ou 40 dias, quando já estiverem comendo sozinhos (observar).

Após a saída dos filhotes do ninho, devemos substituir o ninho, pois logo a fêmea reiniciará o processo. Poderá ocorrer de uma fêmea aprontar e pedir gala mesmo enquanto ainda está alimentando os filhotes. Não há inconveniente em que a fêmea continue alimentando os filhotes e chocando a nova ninhada. É preciso muita atenção para não perder o momento indicado para a gala. Os filhotes devem ser separados da mãe no momento da cópula. O macho e os filhotes não deverão ficar no mesmo compartimento. É possível inserir a grade separadora na gaiola da fêmea, mantendo os filhotes em um lado e a fêmea no outro.
Quando as fêmas estão agressivas com os filhotes, a grade separadoura poderá manter filhotes e fêmea separados. Ainda assim ela continuará a alimentá-los pelos intervalos dos arames.

Ao serem separados da mãe os filhotes devem ser mantidos juntos por mais um ou dois meses, para que se sintam mais seguros. Esse procedimento poderá ser consorciado com o método de vetorização de canto do criatório.