Iniciando uma criação de Bicudos


"...Quando, no entanto, resolvemos nos dedicar à reprodução e, principalmente, à seleção de pássaros competitivos as coisas se complicam e nos é exigido um cuidado especial..."
Fonte: Canto e Fibra
 
Iniciando uma criação de Bicudos

Quando a idéia é a simples manutenção de alguns pássaros tudo se torna mais fácil. Quando, no entanto, resolvemos nos dedicar à reprodução e, principalmente, à seleção de pássaros competitivos as coisas se complicam e nos é exigido um cuidado especial.
A primeira pergunta é sempre a mesma: à criação de quais aves irei dedicar-me e que tipo de pássaros desejo produzir?
Se você está lendo esse texto, muito provavelmente está interessado pelos bicudos. Ótima escolha. São realmente pássaros muito especiais.

O primeiro passo será o cadastramento no SISPASS. Apesar de ser possível a manutenção de pássaros em cativeiro sem esse registro, esses terão de ser adquiridos de criatórios comerciais, com nota fiscal, ficando essa a disposição da fiscalização. Sem o referido cadastro não são possíveis a reprodução e o registro de filhotes, nem as transações de pássaros entre criadores.

Os bicudos são selecionados para as disputas de fibra, onde o que importa é a sua capacidade de repetir o canto frente aos adversários. Embora atingir um nível competitivo não seja nada fácil, a despreocupação com a qualidade do canto simplifica bastante o manejo e exige menor investimento em instalações e equipamentos. Também é mais abundante a oferta de bons exemplares, posto que a modalidade reúne a maioria dos criadores. A seleção de pássaros para as provas de canto clássico implica em dificuldades com instalações acusticamente isoladas e a oferta de matrizes de qualidade é mais restrita. Se a opção for pelo canto ainda há que ser definido o canto da preferência do criador.

Com quantos pássaros iniciar?
Entendemos que a reprodução dos bicudos está simplificada pela quantidade de informações disponíveis, pela facilidade de obtenção de alimentos, medicamentos e equipamentos de excelente qualidade, e, principalmente, pela possibilidade de adquirir matrizes que são reproduzidas em cativeiro há muitas gerações. Mas se isso bastasse, todos teriam sucesso e os bicudos já estariam entulhando as paredes das lojas, comercializados como outros pássaros de menor valor. A figura do criador é decisiva no processo. Ele precisa conhecer a individualidade de cada um dos seus pássaros. Tem que desenvolver a sensibilidade para saber o momento de cada detalhe do manejo. Isso não pode ser comprado ou aprendido nos livros. É necessário conviver com os pássaros.
Um casal é pouco para desenvolver a experiência do novo criador por restringir o universo de referência. As comparações são fundamentais. Também pode ocorrer que determinada fêmea não seja dotada de habilidade materna, que não seja fértil, que uma não aceite um galador e acasale bem com outro. As variáveis são inúmeras e o iniciante que não obtiver sucesso na reprodução do seu primeiro casal, nunca saberá se errou ou se o fracasso ocorreu por força maior. Um número demasiado de pássaros implicaria em muita mão de obra no manejo, que roubaria tempo que o novo criador deve dedicar à observação e ao estudo. Acreditamos que um excelente início seria com 2 machos e 4 fêmeas, de linhagens diferentes. Essa quantidade permitiria o desenvolvimento de todas as técnicas de manejo e seleção. Melhor ainda seria adquirir um bicudo adulto, cujo canto lhe agrade e que cante com um mínimo de 6 repetições, para professôr ou mestre de canto. Em seguida adquirir os primeiros filhotes, preferencialmente os machos devem ter nascido no início da temporada de reprodução. Dessa forma conviverão mais tempo com o professôr aberto e cantando muito. Mesmo que o objetivo seja a produção de pássaros para fibra, um canto agradável é fundamental no criatório.

Onde obter bons pássaros?
Naturalmente as melhores chances de adquirir bons exemplares estão nos melhores criatórios. Observe que escrevi melhores e não maiores. Admitimos que exista a possibilidade de um pássaro com potencial para ser campeão nacional estar cantando em baixo de uma mangueira, no quintal da casa de alguém que não se interessa por torneios. Isso, no entanto, seria a exceção e não a regra. Um bicudo pode ser muito bom no prego da varanda e não ter fibra suficiente para enfrentar a maratona dos torneios. Não é fácil para um pássaro ser transportado por 1.500 Km e superar concorrentes locais em uma roda de fibra. O maior referencial são sempre os torneios oficiais. Criatórios que produzem pássaros que se apresentam bem nos torneios são os indicados para o fornecimento de matrizes. Observe que alguns proprietários de pássaros campeões não se dedicam com afinco à reprodução, optando por adquirir pássaros de outros criadores. Procure adquirir filhotes de bicudos de sucesso comprovado, porem acostume-se com a idéia de que o campeão é o fenômeno. O que devemos buscar é um elevado padrão genético, adquirindo exemplares de boas linhagens, com produção acima da média.
O iniciante não deve adquirir pássaros adultos para formar um plantel, salvo seu professôr de canto.. Se um pássaro adulto for bom, seu preço será inadequado para quem está iniciando a criação. Se for barato certamente não terá a qualidade desejada. A idéia de comprar um ruimzinho mesmo só para começar, e depois ir melhorando com o tempo, é a receita certa para a frustração total. O mais caro em um bicudo é o tempo e a atenção que lhe dedicamos. É importante lembrar que um filhote adquirido nessa temporada poderá lhe fazer companhia por trinta anos, se for bem cuidado. É melhor adquirir um pássaro que lhe agrade, ainda que implique em um investimento maior.

Instalações necessárias.
Naturalmente que instalações são necessárias. Ninguém irá iniciar uma criação de bicudos pela construção de uma estrutura adequada a um grande criatório. Há necessidade de alguma experiência e da definição das particularidades do manejo para que um criador possa definir suas reais necessidades. Para o início pode ser improvisado um cômodo que atenda as mínimas condições de conforto e tranqüilidade para os pássaros. Manter um bicudo em área movimentada é uma coisa. Esperar que a reprodução se concretize é outra bem diferente. O melhor é que se disponha de um espaço privativo para que as fêmeas choquem e criem os filhotes, longe dos galadores.
O local deve, no entanto, atender a alguns quesitos. Os pássaros devem acordar com o clarear do dia e dormir ao anoitecer. Permanecer em um ambiente onde se liga e desliga a iluminação artificial levará os bicudos ao stress. O sol é, ao mesmo tempo, um grande aliado e um inimigo perigoso. Enquanto a luz solar é fundamental à saúde, o sol incidindo diretamente sobre as gaiolas poderá matar um pássaros em pouco tempo, basta um descuido. Ambientes escuros, úmidos ou sujeitos as variações bruscas de temperatura inviabilizam a reprodução e criação dos filhotes. A falta de circulação de ar é terrível. Correntes de ar são piores ainda. Nada muito diferente do que nós mesmos necessitamos. Lembre-se de reservar espaço para o aumento do plantel.

Que tempo é necessário dedicar aos pássaros?
Quem entender as tarefas ligadas ao manejo como um árduo trabalho a ser realizado escolheu o hobby errado. Devemos sentir prazer ao manejar nossos bicudos. O tempo imprescindível ao manejo de um plantel modesto não é muito grande. Mas certamente há necessidade de tempo disponível. Essa é uma questão a ser pensada antes de adquirir um pássaro, ou qualquer animal de estimação. É preciso examinar a questão das viagens.
Quanto mais tempo passarmos com nossos bicudos melhor. Os bicudos se afeiçoam muito ao criador que os maneja. Alegram-se ao vê-lo. Há casos de ótimos bicudos que foram transferidos para outro criador e nunca mais apresentaram o mesmo rendimento.

Equipamentos necessários.
No mínimo as gaiolas, bebedouros, comedouros, rações e misturas de sementes devem ser adquiridos antes da compra do primeiro pássaro. A necessidade ira orientar as próximas aquisições. É horrível alguém chegar a uma loja de animais, com um pássaro recém adquirido dentro de um transportador, querendo comprar gaiola e ração.

Toda a gaiola deve conter:
-U m bebedouro, preferencialmente de cor âmbar para proteger medicamentos da ação da luz e com capacidade de 50 mL. Pequenos bebedouros usados para ministrar vitaminas são uma economia que não apresenta bom resultado. Por armazenar uma pequena quantidade de água, essa se deteriora rapidamente quando resíduos de comida existentes no bico dos pássaros são derrubados no bebedouro.

-Uma vasilha com areia e grit mineral. A areia é ingerida pelos pássaros para auxiliar no processo da digestão, por não possuírem dentes. O grit mineral complementa sua dieta. Basta uma pequena vasilha do tipo porta-vitaminas para resolver o problema.

-Um pedaço de siba ou equivalente, para que o pássaro possa receber suplementação de cálcio. O próprio pássaro saberá regular o consumo segundo sua necessidade.

-Uma vasilha para farinhadas, que poderá ser do tipo "unha".

-Comedouro. Lembrar que a mistura de sementes e os extrusados devem ser oferecidos em comedouros separados.

O mais importante é planejar com detalhes os procedimento que iremos adotar. Os bicudos, como outros animais, apreciam uma rotina bem estabelecida. Horário do banho, da limpeza das gaiolas, composição da dieta, fornecimento de suplemetação não devem ser alterados bruscamente. Principalmente a dieta deve ser objeto de planejamento. Formulação da mistura de sementes, fornecimento de extrusados, receita de farinhada, complementos de vitaminas e aminoácidos, tudo deve ser planejado para que não sofra seguidas variações. A microbiota intestinal se adapta aos alimentos regularmente ingeridos e uma brusca variação no cardápio causa seu desequilíbrio, podendo trazer sérias conseqüências.

Por fim, registre tudo. Todas as observações que possam ser obtidas junto ao fornecedor são importantes. Genealogia, origem, data da aquisição, participação de parentes em torneios, tipo de canto do pai, numero de repetições do pai, data de nascimento,. O registro das informações diárias dos pássaros também é importante. É preciso saber que medicamentos o pássaro já tomou, os sintomas que apresentou, o número de posturas, datas das posturas, filhotes produzidos etc...